domingo, 25 de junho de 2017

Eu, uma mistura de luz e de sombra

Imagem: luzes e sombras, BBC. Larisa.
Quero entender o que se passa dentro de mim, uma mistura de luzes e de sombras, de presença e de ausência, de paz e de perturbação. É como um rio que flui: a sensação de que algo percorre; às vezes turvo às vezes calmo; às vezes rebelde e às vezes tranquilo. Um eu em luta constante, que percorre cada espaço do meu ser. O que é isto que me causa quietude e inquietude, o que é este que me faz estar em paz e inquieto ao mesmo tempo? Um eu que vela e se desvela, que está sempre mudando? Uma luz que quer chegar ao topo, mas que está impedido pela escuridão vindo dele mesmo. Eu tenho necessidade de percorrer cada canto da minha interioridade. Em cada espaço eu encontro sempre uma nova surpresa e me surpreendo comigo mesmo. Conheço pouco de mim, mas talvez o necessário para viver bem dentro da minha própria casa. Vivo sempre na procura de algo, mas que nunca encontro ou se encontro, penso não ter encontrado, pois sempre volto a procurar.

Gabriel Mauro da Silva Rosa..

terça-feira, 13 de junho de 2017

Campo Geral: uma história de Guimarães Rosa sobre o fim da infância.

Felipe e Tiago em Mutum, filme ispirado em Campo Geral.
Guimarães Rosa foi um dos escritores mais engenhosos da nossa literatura. Seus escritos são permeados de reflexões éticas e espiritualistas. Por trás de seus personagens, o autor revela grandes transformações do ser humano no plano da espiritualidade. Campo Geral, escrito em 1956, traz a história de Miguilim, uma criança diferenciada, sensível e contemplativa, predileto de seu irmão Expedito, um menino sábio, que guia o irmão em sua jornada de aprendizagem. Vivendo no Mutúm, uma região castigada pela seca, Miguilim é exposto não somente às asperezas da vida sertaneja, mas também ao conturbado mundo dos adultos. Na história, o narrador e o personagem (Miguilim) se misturam: o mundo é visto pelos olhos da criança. Cheia de simbologia, analisaremos as passagens mais significativas sobre o fim da infância. A primeira delas é a narrativa em que o garoto deve atravessar o mato para levar comida para o pai. A imagem revela o primeiro rito de passagem da criança: o enfrentamento do medo. Para Miguilim, uma criança sensível, inventiva e medrosa, atravessar o mato do Mutúm correspondia a um grande desafio, como em João e Maria, um clássico conto que também tem como tema a travessia da criança para a vida adulta. Ao fazer esta travessia ele encontra tio Terês, o qual havia sido expulso de casa por vovó Izidra (pois havia tido uma relação adúltera com Nhanina, mãe de Miguilim). A relação de Terês e Miguilim era muito afetuosa, o que se percebe claramente na história. Ao partir, o tio pede ao menino que entregue um bilhete para Nhanina. Mesmo amando muito o tio, resolve não entregar, pois se o fizesse, pactuaria com um ato de traição dos adultos. Este é o segundo rito: a construção do senso da justiça e da ética. O terceiro é a morte do irmão Dito. Expedito era uma criança espiritualizada, capaz do amor ágape. A começar pelo nome, que significa enviado, aparece brevemente para cumprir uma missão: auxiliar o irmão em seu percurso espiritual. A relação entre ambos era muito amigável. Ele ensinava a ele sobre tudo: sobre a vida, sobre o sertão e sobre o mundo dos adultos. É um personagem místico. Com sua morte, Miguilim deverá cumprir sozinho sua jornada e colocar em prática aquilo que aprendera com o irmão. Por fim, o último rito. Um médico que passava pelas redondezas do Mútum se encontra com Miguilim e lhe pede que coloque seus óculos (pois notara nele um possível problema de visão). Mais do que colocar os óculos, a imagem representa a nova habilidade da criança para ver, de discernir com clareza, o amadurecimento. Em suma, Campo Geral é uma uma narrativa sobre a jornada humana e suas travessias, sobre a passagem da criança para a vida adulta. Outros temas espiritualistas podem ser encontrados em "A Terceira Margem do Rio", "Os Irmãos Dagobé", "A Menina de Lá", bem como em outras obras do autor.

Escrito por: Gabriel Mauro da Silva Rosa.

Abaixo, entrevista rara ao autor realizada em Berlim (1962):

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sobre essa coisa louca que é o amor.

Nicholas Sparks: "Um Amor para Recordar".
Por que mentir para si mesmo (a) dizendo que nunca amou ninguém ou dizer ter superado esse sentimento se ainda o conserva? Por maiores que tenham sido nossas decepções ou se, pelas voltas que a vida dá, perdemos quem amamos, nunca os esqueceremos, pois, se realmente os amamos, felizmente (ou infelizmente) esse sentimento durará para sempre. Duas pessoas nunca amam do mesmo jeito: uma poderá amar intensamente e a outra um pouco menos. Existem amores insanos e doentios, que nos fazem mal, mas, também, amores sadios, leves e transparentes. Existe o amor de fachada, que é o tipo de amor aparente e há, também, o amor escondido, aquele que interessa somente para os dois e para mais ninguém. Você é dono (a) de seu sentimento e responsável por ele. Ele poderá te consumir ou te libertar, poderá te destruir ou te completar. O velho amor e suas histórias. Talvez as minhas não tenham sido tão felizes, mas todas elas foram verdadeiras, pelo menos da minha parte. Lembro-me de uma vez em que me aproximei de alguém intuindo que seria decepcionado. E realmente fui. Mas, no dizer de Vinícius de Moraes, foi infinito enquanto durou e fui feliz enquanto durou. Talvez por parte de outrem também tenha sido verdadeiro (é difícil dizer), mas do meu sentimento eu tinha e tenho certeza, por isso digo que ainda amo. E não sei por quanto tempo, pois um amor intenso não é superado e dificilmente esquecido. Talvez enterrado, mas sempre com o risco de voltar à tona. Eu estaria mentindo se dissesse que não. Li um conto que dizia que, em uma brincadeira dos sentimentos, a loucura furou os olhos do amor e que, por isso, ele é cego e louco. Por isso, amar é se arriscar, é cometer loucuras, é se decepcionar ou se alegrar. Há vários contos sobre o amor, alguns com finais felizes, outros não. Há amores que ultrapassam gerações e, quem sabe, amores de outras vidas. Um sentimento tão simples, que rende belas e trágicas histórias.

Gabriel Mauro da Silva Rosa.

sábado, 10 de junho de 2017

Você usa suas redes sociais com bom senso?


Imagem: Redes Sociais. Fonte: Google.
Há uma frase viral no Facebook que diz o seguinte: A rede social é minha e eu compartilho o que eu quiser. A rede social é sua, porém muitas coisas que você compartilha acabam afetando outras pessoas e até você mesmo (a). Algumas vezes incomodamos sem saber e ainda somos deselegantes. Mesmo não sabendo qual será a reação de uma pessoa diante daquilo que compartilhamos, seja uma foto, uma frase, um texto ou dando um simples clique, há determinados comportamentos que devem ser evitados. Fazer marcações de amigos em fotos, imagens e textos, por exemplo, mesmo que com boa intenção, poderá ser desagradável para alguns, trazendo desconforto devido ao número de comentários de outras pessoas que aparecerão nas notificações. Mesmo havendo a opção "remover marcação" e "não ser notificado", evite fazê-lo para não incomodar. Marque seus amigos apenas em fotos em que eles apareçam com você ou em algum post que realmente seja importante marcá-los (as). Saiba também o que você comenta. Seja um crítico daquilo que você escreve. Um comentário poderá parecer inofensivo para você, mas não para outros que o lerão. 
Uma das coisas mais atrativas das redes sociais é a possibilidade de compartilhar. Porém é importante saber o quê compartilhar. Muitas empresas têm se utilizado das redes sociais para saber um pouco mais sobre seus candidatos. Uma pessoa que só posta fotos com seus amigos em bares, por exemplo, pode fazer com que sua imagem seja incompatível com os valores da empresa, mesmo sendo ela uma pessoa de boa índole. Saiba selecionar suas fotos, questione a si mesmo (a) sobre o quê seu conteúdo poderá provocar. Harmonize seu mural com conteúdos diferentes, fotos diferentes. 
Outro ponto importante para refletir é sobre privacidade. Infelizmente, mesmo havendo algumas configurações que nos permitem usar a rede com maior liberdade, ainda assim não trazem segurança. No Facebook, por exemplo, comentários e curtidas são expostos aos nossos amigos, mesmo que não queiramos. Por isso, devemos ser ponderados (as) naquilo que curtimos ou comentamos.
Não poste tudo o que bem entender. Não faça de sua rede social um palco onde todos sabem de tudo a seu respeito. Saiba compartilhar sua felicidade e suas tristezas com pessoas certas, nos momentos e nos lugares certos. Saiba dividir apenas o necessário. Saber usar nossas redes sociais adequadamente não é só questão de elegância, mas também de bom senso.

domingo, 4 de junho de 2017

Clarice Lispector



Clarice e seu filho Paulo.
Foto: Acervo Clarice/ Fundação Casa Rui Barbosa.
Muito se fala sobre Clarice na web, principalmente por meio de frases nas redes sociais. No entanto, a maioria delas são palavras postas em sua boca. A autora vai muito mais além do que frases bonitas. Em seus livros e contos, ela lida com o tema da mulher, com dramas familiares, com o amor à literatura, com situações cotidianas etc. Filosofa sobre coisas que podem parecer banais, mas que possuem grande significado, sempre trazendo uma revelação (epifania).  
Meu primeiro contato com Clarice foi através da obra “A Hora da Estrela”, porém só fui compreender sua profundidade no curso de Letras. Ela está por trás de Rodrigo S.M (o narrador): árido e seco, conta a história sem fazer parte dela. É masculino de forma proposital, pois deve narrar a história de forma brutal, não sentimental (da linguagem). É “o monstro esquisito”, que cumpre seu ofício de denúncia social, mas que será sempre marginalizado. Por trás do narrador há a imagem do escritor (a imagem de Clarice).
Além de romances, também escreveu contos variados, para citar alguns: “Os Laços de Família”, “Felicidade Clandestina”, “Feliz Aniversário”, “A Legião Estrangeira”, "O Grande Passeio" e “Perdoando Deus”. São contos que trazem grandes revelações por trás de cada símbolo e por trás de cada personagem. Neles, a autora aborda sobre a velha tradição da família burguesa, sobre o amor à literatura, sobre o esquecimento, sobre o abandono e sobre a solidão, assim como vários outros temas e reflexões, utilizando a ironia para provocar o leitor.
No ano de 1977, Clarice concedeu sua única entrevista ao repórter Júlio Lerner (pouco antes de sua morte), que pode ser encontrada no YouTube, no canal da TV Cultura. Nessa entrevista, é possível ter uma imagem de quem ela foi, uma mulher que parecia não pertencer a este mundo: profunda, absorvida em seus pensamentos, envolvida em um ar de mistério.
É impossível trazer neste post, toda a riqueza e profundidade de suas obras ou de sua biografia. Só é possível conhecer e entender Clarice lendo suas obras, como ela mesma disse, “sentindo, entrando em contato”.  

Abaixo, algumas de suas várias fotos:


 Formatura em Direito. Foto: Acervo autora/IMS.

Clarice Lispector e Tom Jobim, no lançamento de "A Maçã no Escuro".  Foto: Acervo Arquivo Nacional.


Clarice e sua máquina de escrever. 



Clarice e Maury (seu marido) em Veneza. Década de 1940.

Clarice com seus filhos: Pedro e Paulo.
Clarice na passeata contra a ditadura militar, em 1968. Da esquerda para a direita: Carlos Scliar, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento.

O vídeo com a entrevista concedida ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura, pode ser acessado aqui
Para mais  detalhes da entrevista, acesse a matéria do Jornal Opção.

  

sábado, 3 de junho de 2017

Três poemas de João Cabral de Melo Neto sobre o que é escrever.





1. Catar feijão
 
1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão, entra um risco:
o de entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quanto ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

2. Rios sem discurso

1.
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
2.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

3. Tecendo a Manhã

1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Dicas simples sobre como escrever melhor.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não existe uma fórmula para a escrita. O que existe é treino e leitura. Grande parte dos jovens possui dificuldades para escrever porque poucos leem.
Dedique algumas horas do seu dia para ler, começando com textos menores e simples, e, depois, textos maiores e profundos. Dessa forma você irá adquirir hábito e consequentemente disciplina.  Experimente carregar dentro da bolsa ou da mochila, algum livro ou revista, aproveitando para ler enquanto aguarda em uma fila ou enquanto aguarda o ônibus, por exemplo.
Selecione aquilo que você lê.  Em uma sociedade de informações rápidas onde todos querem aquilo que é mais fácil e mais rápido, as pessoas acabam absorvendo informações falsas e irrelevantes. Seja um leitor crítico!
Leia sobre assuntos variados. Nosso cérebro é como uma caixinha que armazena as informações em compartimentos diferentes.  Ao escrever seu texto você saberá exatamente sobre o quê escrever, possuindo as informações necessárias no momento certo. Bom leitor é aquele que lê sobre tudo!
Treine sua escrita. Você não aprenderá a escrever se não praticar. Não escreve bem aquele que escreve de modo sofisticado, mas sim aquele que escreve com clareza e simplicidade para que todos entendam. Lembre-se que simplicidade nada tem a ver com pobreza. Um bom texto não é aquele que possui palavras sofisticadas, mas sim, aquele que possui as palavras corretas, ideias profundas e bem desenvolvidas. Não escreva aquilo que você não tem certeza.
Saiba usar corretamente os elementos de coesão. Escrever é como tecer e tais elementos ligam e arrematam os pontos da costura.
Atente-se para a revisão. O grande inimigo dos textos obscuros é a falta de releitura do texto redigido. Avalie mentalmente o seu texto: É compreensível para o leitor? É conciso e legível? As ideias estão bem distribuídas e desenvolvidas?  Obedece ao padrão exigido?
Em suma, não é dominando a gramática que você escreverá bem. Não adianta nada dominar as regras gramaticais se você não sabe o que escrever. Com a leitura, você não só irá formar seu conhecimento de mundo, tendo as informações necessárias para formar sua opinião sobre o assunto, mas também aprenderá a gramática intuitivamente.

Gabriel Mauro da Silva Rosa

Licenciado em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas.